Como os Alimentos Ultraprocessados Influenciam a Perda de Peso

Porque os alimentos ultraprocessados podem tornar mais difícil manter um défice calórico e perder peso.

Kelsey Green
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Nutricionista (Licenciatura em Ciências da Saúde, Medicina Nutricional)
4,5 min de leitura

Se comparares a forma como comemos hoje com há algumas décadas, a diferença é evidente. Muitos dos alimentos em que confiamos agora são muito mais processados do que eram. São práticos, sim, mas quando aparecem com frequência podem, silenciosamente, atrapalhar a perda de peso.

Vamos ver o que são os alimentos ultraprocessados, porque dificultam o emagrecimento e como reduzir o seu consumo no dia a dia.

O que são alimentos ultraprocessados?

São produtos significativamente alterados face à sua forma original. Normalmente incluem ingredientes que não costumas ter na despensa lá de casa, como intensificadores de sabor, emulsionantes, corantes, edulcorantes e conservantes. Além disso, é comum serem ricos em hidratos de carbono refinados, gorduras adicionadas e açúcares adicionados.

Uma forma útil de pensar neles é comparar o que o alimento era no início com o que se torna no fim. Por exemplo: milho transformado em cereais de pequeno-almoço açucarados, ou batatas transformadas em batatas fritas com sabor. Em ambos os casos, o alimento original é bastante modificado pelo processamento e pela adição de ingredientes que mudam a forma como é consumido e o efeito no organismo.

Uma maneira simples de identificar um ultraprocessado é olhar para a lista de ingredientes. Se soar mais a experiência de química do que a receita, ou incluir ingredientes que não reconheces, é provável que seja ultraprocessado.

Estes alimentos não são “maus” nem proibidos, mas tornam-se um problema quando ocupam uma fatia grande do que comes no dia a dia.

Como os ultraprocessados podem dificultar o emagrecimento

A investigação mostra, de forma consistente, que dietas com mais ultraprocessados estão associadas a piores resultados de saúde — incluindo maior peso corporal, resistência à insulina, inflamação e alterações na saúde intestinal (1). O mais surpreendente é o impacto direto na própria perda de peso.

Num estudo em que as pessoas seguiram uma alimentação maioritariamente minimamente processada ou maioritariamente ultraprocessada (ambas alinhadas com orientações de alimentação saudável e com objetivos calóricos semelhantes), o grupo “minimamente processado” perdeu significativamente mais peso e gordura corporal (2).

Porque é que comer mais ultraprocessados pode levar a resultados tão diferentes? Eis os fatores principais.

Mais calorias em menos comida

Os ultraprocessados tendem a ter elevada densidade energética — mais calorias por dentada do que alternativas menos processadas. Isto significa que uma refeição pode parecer pequena, mas ainda assim conter bem mais calorias do que esperavas. Quando muitas refeições e snacks são construídos assim, manter o défice calórico exige mais esforço.

É também por isso que estes alimentos são os mais importantes para registar na app da fatsecret — ajuda a evitar subavaliar a ingestão.

Fáceis de comer em excesso

Os ultraprocessados são concebidos para serem muito apelativos. Muitos são “afinados” para uma combinação específica de doçura, sal e gordura que ativa fortemente os circuitos de recompensa do cérebro. Fica fácil continuar a comer mesmo quando a fome física já foi satisfeita. Num estudo que comparou dietas mais e menos processadas, as pessoas consumiram significativamente mais calorias e ganharam mais peso quando comiam ultraprocessados (3). O curioso foi como isso aconteceu: comeram mais depressa e mastigaram menos, o que facilitou ingerir mais energia num curto espaço de tempo.

Interferem na regulação do apetite

Comparados com alimentos menos processados, os ultraprocessados associam-se a níveis mais baixos de hormonas de saciedade. Em parte porque tendem a ter menos fibra e a digerir-se mais depressa — as refeições saciam menos e a fome regressa mais cedo.

Como comer menos ultraprocessados

Pelo impacto no apetite, na ingestão calórica e no emagrecimento, reduzir conscientemente a frequência com que estes alimentos aparecem pode ajudar bastante.

Passo inicial simples: torna-te mais consciente de quais os alimentos na tua dieta que são realmente ultraprocessados. Lê as listas de ingredientes e identifica produtos com listas longas de termos desconhecidos ou com vários aditivos.

Depois, foca-te em pequenas trocas realistas em vez de tentares mudar tudo de uma só vez. Por exemplo:

  • Se costumas comer cereais açucarados ou muito processados ao pequeno-almoço, troca por flocos de aveia e adiciona fruta ou frutos secos para dar sabor.
  • Em vez de barras embaladas, opta por iogurte com fruta, frutos secos ou sementes.
  • Troca bebidas aromatizadas ou refrigerantes por água com gás com um pouco de sumo.
  • Escolhe pães simples, com menos ingredientes, em vez de versões muito processadas.

Ao perceberes melhor onde os ultraprocessados aparecem na tua alimentação — e ao fazeres algumas trocas simples — consegues uma diferença real tanto na ingestão calórica como na saciedade após as refeições. Se perder peso tem sido mais difícil do que esperavas, olhar para o tipo de alimentos que comes — não só para o número de calorias — é um bom ponto de partida.

Pontos-chave

  • Os ultraprocessados têm hoje grande peso na alimentação do dia a dia e podem, silenciosamente, dificultar a perda de peso — mesmo quando as calorias parecem “controladas”.
  • Não é só sobre calorias, mas como elas chegam. Os ultraprocessados concentram mais energia em porções menores — é mais fácil comer acima do previsto.
  • São mais fáceis de consumir em excesso: textura, combinações de sabor e velocidade de consumo favorecem maior ingestão de energia antes de dares por isso.
  • Tendem a saciar menos: menos fibra e digestão mais rápida = saciedade menor e fome que volta mais cedo.
  • Não é preciso evitá-los por completo. Com mais consciência e algumas trocas simples, consegues orientar a tua alimentação para melhor saciedade e uma perda de peso mais sustentada.

Referências

  1. Alimentos ultraprocessados e saúde humana: revisão sistemática e meta-análise de estudos de coorte prospetivos (2023). doi: 10.1016/j.advnut.2023.09.009
  2. Dietas ultraprocessadas ou minimamente processadas segundo orientações de alimentação saudável: efeitos no peso e na saúde cardiometabólica — ensaio randomizado cruzado (2025). doi: 10.1038/s41591-025-03842-0
  3. Os alimentos ultraprocessados causam aumento de peso e maior ingestão de energia associada a menor frequência de mastigação: estudo randomizado, aberto, cruzado (2024). doi: 10.1111/dom.15922
Kelsey Green
Nutricionista (Licenciatura em Ciências da Saúde, Medicina Nutricional)